terça-feira, 27 de abril de 2010

As Cinco Torres da Minha Vida

Bom dia, alegria!!!
Quem é vivo sempre aparece, não é? É nisso que deves estar a pensar: acertei? Bingo! Eu percebo, mas não te tenho vindo visitar, pois não me tem sido possível. Faculdade, Páscoa, Família. Aprendizagens. Enfim, numa só palavra, Vida. Desculpas-me? Serei capaz de me redimir por este meu significativo silêncio? Vou tentar fazê-lo. No fim, conto com a tua sinceridade na obtenção desta resposta, ok?
Porém, por agora, peço-te que me escutes com a devida atenção. Vou regredir cronologicamente e confiar-te um dos muitos episódios ocorridos. Xuuuuuu!! Ouve-me! Vai começar…
Há uns meses atrás, sensivelmente a meados de Fevereiro, um Amigo meu confidenciou-me que se identificava com a minha escrita.
Hmmm…porquê?
Ora, em tempos, também ele se dedicava a esta actividade. Todavia, abandonou-a, e, ao rever-se no que ia lendo do meu blogue, encontrou-se. Foi assim que nele renasceu o gosto adormecido pela escrita.
Embebido nessa revitalidade, decidiu colocar-me um desafio: redigires um texto baseada num dos títulos das minhas composições, As Cinco Torres da Minha Vida.
Imediatamente, SIM. Sim, claro que aceito a proposta.
Do outro lado, recebo: Quando a concluíres, envia-me por e-mail para que possa confrontá-los e verificar as nossas semelhanças.
Combinado. Assim o farei.
E assim foi. O tempo foi passando, e, com ele, amadurecendo as ideias que me ocorriam acerca deste mote, deste incentivo, a esta minha Escrita Afiada.
A primeira que me surgiu foi extremamente básica. Nada genuína, acrescentaria até. Reflectir sobre cada um dos seus constituintes e interpretá-los de forma holística, global. Integrada. Equilibrada.
Façamos, então, este exercício em conjunto. Vou pensar alto. Mais uma vez.
Comecemos com o As. Pensando em As, julgo que pouco mais há a dizer. Apenas que se enquadram morfologicamente na categoria dos determinantes artigos definidos femininos do plural.
Que termo é que será igualmente conjugado no plural? (Não digo no feminino, porque Torres é uma das muitas palavras neutras existentes na nossa Língua)
Óbvio: Torres.
Torres?
Sim, Torres, correndo o risco de estar a escrever sobre um assunto que já fez correr muita tinta – as ex-Torres Gémeas, Torre Eiffel, Torre de Pisa, Torre do Tombo, Torre dos Clérigos, Torre de Babel –, e, inevitavelmente, sobre quem as “arquitectou” em torno de questões como quando, como e onde.
Contudo, estas distinguem-se de quaisquer outras pela sua especificidade. São diferentes. Ímpares. Únicas. Únicas, mas não solitárias. Aliás, só assumem real significado quando juntas. Reunidas. As Cinco. Aí, tornam-se grandes, resistentes. Fortes. Inabaláveis. Indestrutíveis.
Com o numeral cinco, já lemos expressões como Cinco Para a Meia-Noite, Os Cinco, Cinco Estrelas, sendo que, nestas duas últimas, este assume a função de cardinal por se referir à totalidade de elementos de um dado conjunto.
Mas agora As Cinco? A que aludirão?
Boa pergunta. Não sabem? Ainda não adivinharam? Acham que não conseguem acompanhar o meu raciocínio? Tudo bem. Eu digo-vos.
As Cinco. As Cinco Torres.
Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim, mas quais?!
Ah! Isso agora já é outra conversa. Eu volto a explicar.
É a do eu, onde este se encontra, embora não haja um discurso narcísico nem egocêntrico. Apenas se reconhece como um dos elos importantes, ao partir da sua própria auto-estima e gosto pessoal para estar de bem com a Vida e com o Outro.
Com o Outro. A próxima, a próxima Torre, é a do Tu. Lá está, a do Outro, que, como nosso semelhante, exactamente semelhante, independentemente das suas opções políticas, religiosas, sexuais ou clubísticas (não me refiro às raciais, que estas não existem. Raça há só uma: raça HUMANA!), deve ser respeitado, estimado e valorizado como um contributo para o crescimento do grupo.
Indissociável destas duas, surge a seguinte. A do Nós. Nós em que o Eu se associa ao destinatário da enunciação, o Tu, representado não importa em que figura – pai, mãe, irmão, irmã, tio, tia, primo, prima, amigo, amiga, namorado, namorada, etc. Nós esse onde impera a compreensão, a tolerância, o sentido de entreajuda. Nós no qual se reafirma a ausência do carácter individual como consciência de que o Homem é um bicho social, e, como tal, incapaz de ser feliz sozinho (ainda que admita que a felicidade é momentânea. Porém, está nas mãos de cada um alcançá-la. De nada nos adianta ficarmos sentados à espera de uma mãozinha. Acordem para a Vida).
Apresentadas estas três primeiras Torres, ficam a faltar-nos outras duas. A quarta e a quinta, que é como quem diz a do Saber e a do Estar.
Quanto à quarta, a do Saber, parece-me indiscutível a sua inclusão: é necessário sublinharmos a formação contínua, que perdura tanto quanto a Vida, o facto de o Saber não ocupar lugar algum, o que torna a sede insaciável e a Vida uma constante interrogação perante a qual temos sempre mais e mais questões a colocar. Ou seja, quanto mais descobrimos, mais ansiamos desvendar. Saber. E só Sabemos que nada Sabemos.
Já a quinta, a do Estar, engloba o Saber Estar em sociedade, embora não corresponda ipsis verbis ao conjunto de regras que se devem tomar como exemplos por serem os politicamente correctos, aceitáveis. Esperados. Pré-concebidos. Isso não cá vive. Aqui, a marca é outra. É a da sinceridade. A da frontalidade. A da frontalidade como espelho de alma. Convivemos, comportamo-nos, estamos onde, como, quando e com quem desejarmos, porque assim o pretendemos. Não porque Lá terá de ser. Bora lá fazer este jeito.
Muito resumidamente, são estas as Minhas Torres.
As Minhas Cinco Torres da Vida.
Uma
Duas
Três
Quatro
Cinco

Concordas?

*)

Naquele Tempo...

Olá, amigo leitor!!

Hoje, venho contar-te uma história. Não uma história imaginária, daquelas que aparecem nos livros de contos de fada, que estás habituado a ler, mas verdadeira, pois aconteceu mesmo e estou cá eu para to provar.

Sabes? Eu também já fui criança, embora isso custe a admitir à maioria dos adultos, ou até se esqueçam disso, mas eu não. Eu dificilmente esquecerei. Não. Eu nunca esquecerei, por muitos anos que ainda viva, do meu tempo de criança, porque fui bastante marcado por ele, pelo tempo. Aliás, é desse meu tempo de criança de que te venho falar hoje.

Naquele tempo, há já muito tempo atrás, há trinta e cinco anos mais precisamente, ainda tu não eras nascido, o meu país (que, hoje, também é o teu, Portugal) estava repleto de pessoas tristes, cinzentas, fechadas e mudas. Pessoas com Medo. Medo não. Medo é pouco ainda. Pavor. Sim, Pavor. De uma forma geral, era isso. Era isso que as entristecia, que as acizentava, que as fechava e que as calava.

Mas, perguntar-me-ás tu: “Com Pavor de quê?” e eu respondo-te: “Com Pavor de tudo e de nada”. De pensarem. De traduzirem por palavras o seu pensamento. De conversarem entre elas. De viajarem para outros países, conhecendo outros mundos e gentes. De escreverem o que quer que fosse.

Por tudo isto, falavam, nas poucas vezes que falavam, num tom baixo. Falavam entredentes. Nos cafés, nas ruas, nos seus empregos e casas. E, sempre que alguém se aproximava delas, para lhes perguntar alguma coisa, baixavam a cabeça e mudavam rapidamente de assunto.

Mas, infelizmente, isto ainda não é tudo...
Naquele tempo, até parecia que as paredes tinham ouvidos. Tudo se descobria. Havia milhares de olhos e de ouvidos. Isto acontecia porque o Estado criou diversos meios para poder oprimir e anular liberdades individuais, pois é o que sucede quando os governantes não são amados nem sequer respeitados; quando impera a desconfiança constante face aos outros. Daí o Estado descrever-se como profunda e orgulhosamente só (já que nem mesmo os países estrangeiros o apoiavam agora), sem saber o porquê de algumas pessoas estarem do seu lado, isto é, se por medo, por convicção, ou até, se por puro interesse.

E um desses muitos meios foi a PIDE – a Policia Internacional da Defesa do Estado, que veio substituir a antiga DGS, a Direcção – Geral de Segurança. Criada em 1933, por António de Oliveira Salazar, o ditador fascista que ocupava o cargo de Presidente do Conselho de Ministros, instaurador do Estado Novo. Tornou-se na mais odiosa das instituições, porque seguia todos os passos das pessoas, interferindo até na sua vida pessoal. Espiando e perseguindo o seu dia-a-dia, através de escutas telefónicas, da invasão às suas casas a qualquer hora e da violação da correspondência, entendendo que isto fazia parte do bem comum.

Para além disto, vigiava Homens inocentes que, só por pensarem de maneira diferente do regime ditatorial, eram levados presos. Ora para Tires, ora para Caxias ou ora para Peniche, mas também para campos de concentração, como o do Tarrafal, onde se encontravam os membros mais perigosos, encerrados durante anos, apesar de terem tentado fugir - Bento Gonçalves, Eduardo Gonçalves, Jacinto Vilaça, Mário Castelhano, entre muitos outros. Aí, eram torturados de forma a dizerem tudo o que sabiam. Contudo, como não faziam o que lhes era pedido, muitos deles acabaram mortos, ainda que o Estado declarasse que a sua morte se deveu a um acidente ou a um suicídio.

Um outro meio de repressão foi a Censura que era representada pelo lápis azul que relia e riscava todas as mensagens contrárias ao regime existente transmitidas pela Comunicação Social (revistas, jornais e rádios). A primeira estação de rádio surgiu em 1935. Era a chamada Emissão Nacional que foi, imediatamente, aproveitada pela ditadura como forma directa de propaganda política, embora não tenha tido o efeito desejado: havia sempre quem desafiasse o regime e fizesse programas proibidos que, quando descobertos, já era tarde, pois a mensagem de esperança já tinha chegado a muitos portugueses.

Naquele tempo, todos os Homens eram obrigados a prestar serviço militar. Naquele tempo, estávamos na altura da Guerra Colonial.

Naquele tempo, a emigração era muita. Não se encontrava trabalho pelo país. Portugal era um país pobre e atrasado, que poucas opções de escolha dava às pessoas. Ou continuavam a levar a vida que os seus pais e avós levaram, ou partiam à aventura para outros países mais desenvolvidos – como a França, a Alemanha e a Suíça – em busca de melhores condições de vida. Mas, tanto o faziam legalmente, tendo, assim, emprego e estadia assegurados nesse país, como ilegalmente, o que acontecia com a maior parte dos estudantes.

Naquele tempo, a sociedade vivia limitada nos seus comportamentos. Tinha de valorizar a figura de Salazar; ver a educação como um meio de obediência e não de igualdade, ou de liberdade. Nesta sociedade, a mulher e o homem não tinham os mesmos papéis. O homem tinha de trabalhar para sustentar a sua família, enquanto a mulher ficava em casa a tomar conta dos seus filhos, mostrando ser uma boa esposa e uma boa mãe.

Também o namoro, naquele tempo, era diferente. Acontecia quase sempre às escondidas, era proibido beijar-se em público, e, caso as autoridades assistissem a uma situação destas, multavam quem a praticasse.

Naquele tempo, os jovens deviam de conviver pouco, por isso, é que, nas escolas, havia a preocupação de os separar pelo sexo, colocando as raparigas numa sala e os rapazes numa outra.

Naquele tempo, o povo tinha direito ao voto, mas este não era totalmente livre. De acordo com a Constituição de 1933, só um partido era legal, a União Nacional. Isto fez com que não houvesse verdade nos resultados obtidos durante a contagem dos votos. Assim, este partido conseguia vitórias esmagadoras. Por outro lado, quem votava na Oposição, era perseguido, marginalizado, e, até mesmo, expulso do seu local de trabalho.

Quando Salazar morreu, dizem que foi por ter caído de uma cadeira e ter batido com a cabeça no chão, foi substituído por Marcelo Caetano, mas este nada mudou na política. A solução acabou por chegar do lado de quem fazia a guerra: os militares, entre os quais Otelo Saraiva de Carvalho, Vítor Alves, Salgueiro Maia, Costa Gomes, António Spínola, Mello Antunes e Vasco Carneiro, pois não te esqueças que dos desastres e dos fracassos também se tiram lições.
Cansados de tudo isto, os militares criaram o MFA – o Movimento das Forças Armadas -, mais conhecido como o Movimento dos Capitães.

Estes acreditavam em valores como a camaradagem, a lealdade, a confiança no outro e o respeito pela palavra dada. Acreditavam que, juntos, seriam invencíveis, que poderiam alterar o futuro, por isso, é que Marcelo Caetano dizia: “Cuidado com esses Capitães que são muito novos para se deixarem comprar”. Sem dúvida que tudo seria diferente se estes homens fossem mais velhos. Seriam menos activos e menos sensíveis às situações de injustiça e de violência. A sua ousadia e generosidade em conjunto com a experiência e o conhecimento dos mais velhos, que lutaram na Guerra Colonial, foram muito importantes para que tu hoje vivas num país diferente.

Era, então, chegada a hora da mudança. Otelo Saraiva de Carvalho fez um plano militar, e, na madrugada de 25 de Abril de 1974, a operação “Fim-Regime” tomou conta dos pontos mais importantes da cidade de Lisboa, em especial, dos aeroportos, da rádio e da televisão.

Mas, para saberem quando deviam sair à rua, na rádio, ouviram-se duas músicas que serviram de senha para a revolução: “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, e “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso.

As forças do MFA, lideradas por Salgueiro Maia, cercaram e tomaram o quartel do Carmo, onde se refugiara Marcelo Caetano. Este, apanhado de surpresa, limitou-se a assistir aos acontecimentos. Para ele, este foi um dia de pesadelo que queria ver chegar ao fim o mais rápido possível.

Já, para a população, este dia foi muito importante, pois foi o dia em que lhes foi devolvida a Liberdade, por isso, é que ficará para sempre celebrado como o Dia da Liberdade, ou como a Revolução dos Cravos, uma vez que, durante as manifestações, uma senhora ofereceu um cravo a um militar que o colocou na sua arma.

O povo português viu as portas das cadeias abrirem-se, libertando-se, assim, os sobreviventes; as janelas encheram-se de cravos e de bandeiras; e os rostos já não eram os mesmos, porque se iluminavam agora de alegria.

Com tudo isto, quero dizer-te que deves aproveitar todos os valores que o 25 de Abril te trouxe: a democracia, a liberdade e a igualdade. Se hoje podes exprimir as tuas ideias, manifestar-te ou, até mesmo, namorar em público, deve-se aos teus antepassados que lutaram, ainda que, para isso, alguns deles, tenham perdido a vida, enquanto lutavam por aquilo que acreditavam: num país mais livre e mais justo, onde todos tivessem lugar, com igualdade de direitos e liberdade de expressão.

E lembra-te: luta sempre por aquilo em que verdadeiramente acreditas, por aquilo que achas que tens direito, se é mesmo isso que queres. Durante essa luta, não desistas. Todos temos capacidade para mudar o futuro.

Página Vinte e Três

Estou, pela primeira vez, a escrever neste teu presente. Presente teu esse com memória de passado. Mas, como disseste, e, com toda a razão, pois concordo plenamente, vão-se os anéis e ficam-se os dedos, ou seja, as boas memórias são as que ficam, as que perduram pelo tempo, por mais que este tente rasgá-las. Apagá-las.
Decidi, portanto, recuar a página e reencontrar-te. E, curiosamente, reencontrei-te na Página Vinte e Três, por isso, será esse mesmo o nome com o qual irei intitular este “texto” (se é que, no final, assim poderá ser considerado, visto estar a redigi-lo numa altura em que preciso de desabafar, de me libertar de lutas interiores), Página Vinte e Três.
Foi, exactamente, neste dia, no dia Vinte e Três, que se operou uma reviravolta nas nossas vidas. Reviravolta essa que, ainda hoje, não consigo qualificar devido ao vasto conjunto de factores, quer positivos, quer negativos, que lhe estarão para sempre associados. Página Vinte e Três essa que deixaste, talvez, por vontade própria, ou por mero lapso, quem sabe, em branco e que eu senti agora necessidade de a preencher. Tal como ela se encontrava inicialmente, também eu me sinto, neste momento, assim. Em branco. Vazia. Tudo parece ter desabado à minha volta, embora creia que tudo se reestruturá, em breve, de uma outra forma.
Enquanto tal não acontece, venho falar contigo (Será que posso, ou será ousadia a mais da minha parte? Mesmo que venha um redondo não, eu vou fazê-lo).
Dizer-te que tenho saudades tuas.
Saudades do tempo que era nosso.
Saudades desse tempo, que, por nos ser tão caro, parava relógios e nos levava a viajar.
A viajar por um mundo (igualmente nosso) sem que, para isso, fosse necessário, descolarmos do chão, perdermos a verticalidade, ou, até mesmo, a consciência.
Saudades do tempo em que nele deambulávamos. Ora de zonidapus, ora de ziribiguidófilo à base de tamilufa, ora de zonidói, ora de zonidapum.
Saudades do tempo em que as minhas palavras eram as tuas – vinte e dois, Biblioteca Raquel, chamada telefónica, pipi, fofa, Hello Kitty, fio dental, noventa e nove amiguinhos, chupa-chupa em forma de goma, Válega, intenso, Dina como homem, 1+1=1, beijoca, beijo sussurrado, candeeiro inapagável.
Saudades do tempo em que os meus olhos eram os teus.
Saudades do tempo em que eu eras tu.
Saudades do tempo em que tu moravas em mim e vice-versa.
Saudades do tempo em que me seguravas a mão e isso bastava para viver.
Saudades do tempo em que falávamos no silêncio.
Todavia, como tudo o que é bom, acaba depressa, está (in)felizmente na altura de virar a Página. De viver o presente, como dádiva que é (caso contrário, não se designava assim, de presente). De reconhecer que a vida só o é, quando há cabeçadas contra a parede, quando há pontapés e bofetadas à mistura, porque, sem eles, não haveria qualquer aprendizagem, crescimento, e/ou amadurecimento.
Contudo, se me perguntares se penso que este percurso está já terminado, não te sei ainda responder. Só o tempo o dirá, e, talvez, um dia, mais tarde, percebas que, embora ninguém seja perfeito à face da Terra, eu, na minha perfeita imperfeição, nunca te traí por um minuto que fosse.
P.S. Obrigada por tudo. Espero que estejas bem. Mereces este mundo e o outro. Deixo-te com um forte abraço.
Ana, aquela, que, outrora, chegou a ser tua.

C de Cookie

Há muito tempo atrás, pediram-me que escrevesse um texto, a partir de frases feitas, de lugares comuns, de clichés, no fundo. E, embora não seja adepta deste tipo de linguagem, aceitei o desafio e pus-me a pensar num tema que desse pano para mangas. Foi, então, que me veio à cabeça os animais domésticos e a sua importância na nossa vida para quem não os olha, tal como eu, como um objecto, como uma vaidade, como mais uma parte de nós, uma espécie de alter-ego, mas sim como uma deliciosa companhia de quatro patas a quem devemos muito, daí que nele explique toda a história da minha cadela Cookie.
Para o levar a cabo, contei com a já habitual ajuda da Minha Ervilha que me forneceu um livro de consulta sobre provérbios, ditados populares, lenga-lengas, e outros dentro do mesmo género, onde pude fazer uma pesquisa acerca da temática já referida e dele retirar os que mais se adequavam ao meu intento, para além de se disponibilizar a ler, a reler e a opinar no final da sua redacção. Por tudo isto, devo-te uma. (Pago-te com um beijo sussurrado, aceitas? xD)
No dia em que te conheci, tinham-me martelado literalmente, diante de mim, o telemóvel. Um Nokia 2310 que me fora oferecido por uma pessoa amiga.
Contudo, o mundo não acabava ali, porque, em primeiro lugar, antes desta nova era tecnológica, os indivíduos não se deixavam de comunicar (bastava que houvesse interesse de parte a parte para tal), e, depois, há mar e mar, há ir e voltar.
Cedo, então, me apercebi de que este facto não tinha sucedido por mero acaso: nada assim o é. Nada assim acontece. Por mero acaso. Por dar cá aquela palha. Ou mesmo como fruto do fatum, isto é, da predestinação. Acontece sim porque nós assim o condicionamos. Somos nós, cada um de nós, dia após dia, quem vai traçando as linhas da vida, embora haja quem advogue a favor da existência divina como explicação para toda e qualquer realização terrena, culpabilizando-a, a esta entidade superior, dado que é sempre mais fácil colocar os erros nos outros e vermos os problemas através deles, quase perfeita, designada, por alguns, como Deus, por outros como Alá, que nos “avalia”, a cada momento, para, mais tarde, nos poder punir ou beneficiar (tudo dependerá, obviamente, do nosso comportamento).
Minutos antes de te conhecer, acontecia o que já era previsto, o que já tem vindo a ser um hábito, cá de casa, desde os meus quatorze anos: eu arrumar a cozinha, depois do jantar. Mas, minutos antes de te conhecer, o imprevisto também tinha lugar, o imprevisto também acontecia: virem-me avisar para me despachar que tinha uma surpresa à minha espera.
Como é que reagi?
Lavei, de imediato, as mãos para delas retirar a espuma do detergente de loiça e fechei a torneira. Fechei a torneira, dirigi-me até ao pátio e deparei-me contigo. Estávamos nós no dia 25 de Março de 2008. Faz hoje um ano e seis meses: como o tempo voa!! Tão pequenina e frágil, que dava dó só de pensar como é que alguém vos pode abandonar assim, ou ir de férias e esquecer-se, pura e simplesmente, sem dó nem piedade, que vocês, como seres vivos que são, sentem e experienciam, tão bem ou melhor do que nós, ditos humanos, ou animais racionais como lhe queiram chamar, o que é a dor, a ausência, o frio, o medo e o afecto. Tão pequena e frágil que só dava vontade de te pegar ao colo. E foi exactamente isso que fiz sem mais demoras. E, assim que te aconcheguei, junto do meu peito, e te embalei nos meus braços, enfiaste o focinho por dentro do meu casaco de fato-de-treino (que se encontrava aberto na altura): entendi isso como um Fica comigo. Não me abandones. O que eu preciso é de mimo. De resto, deixa comigo que me portarei bem. Prometo-te. Fica comigo. Vá lá. e beijei-te a nuca. Começaste a lamber-me e continuaste enroscada.
Depois, perguntaram-me se eu queria ficar contigo, ao que respondi prontamente, sem hesitar nem um segundo que fosse, que sim, pois, há muito, que queria ter um amigo, como tu, na minha vida, um amigo de quatro patas, ainda que a resposta obtida fosse quase sempre esta, sendo quase sempre, presa por ter cão e por não o ter: Primeiro, tu estudas e eu trabalho. Vamos as duas, cinco dias por semana, cedo para o Porto e só chegamos de tarde a casa, por isso, não temos tempo de cuidar de um animal, o que o levará ao sofrimento. Depois, vivemos num prédio e seria quase impensável aceitar-se um cão nestas condições, logo, está decidido: agora não, Ana. Um dia, quiçá? Talvez, um dia, ...
E o dia acabou mesmo por chegar, porém, tardou a acontecer, e, nesses entretantos, fui mantendo contacto com outros animais, tão amigos do Homem como tu: o Toddy, o Óscar, a Daisy, o Boris e a Mimy – Quem não tem cão, caça com gato.
O Toddy, que vivia cá fora, na casota, de quem eu sempre tive medo, contrariarmente aos restantes quatro; o Óscar, um gato excepcional, preto, com manchinhas brancas e cinzentas, de olhos verdes, que podia ir dar a sua voltinha, que bem sabia onde morava, regressando ao seu habitat, onde dormia, por cima do guarda-fatos, à beira dos sapatos; a Daisy que, sendo uma rafeira castanha, só lhe faltava falar, pois sempre que nos aproximávamos dela, nos dava a pata, pedindo-nos festas, e, se não lhas dessemos, roçava a sua cabeça em nós, como quem diz Desta não te escapas, não te faças de desentendido; o Boris, um verdadeiro husky, de um olho de cada cor, um azul, outro castanho, que viera da Clínica Veterinária de Matosinhos, onde trabalha a minha madrinha, traumatizado pelos maus tratos que a dona lhe dava, que dorme debaixo da cama, e que, um dia, me levou de rastos, assim que avistou um gato, enquanto o passeava; e, por último, a Mimi, cujo nome teve origem em Mimosa, uma gata que, como todas as outras, faz romrom assim que a mimamos, que fora encontrada na rua, por nós, eu e a Filipa, aquela minha primaça aguada, a melhor do mundo, aquando uma ida ao trabalho da Tiana, no carro da Ló.
Foi através da minha madrinha que eu percebi como é possível ter-se animais educados, limpos, dóceis e felizes a conviver connosco. A ela lhe devo tudo que hoje sei: dar-se o Frontline uma vez por mês, a dia 29; devemos levá-los regularmente ao veterinário; passeá-los todos os dias para se tornarem sociáveis e não raivosos; dar-lhes banho de quinze em quinze dias com um shampôo próprio; atribuir-lhes um nome curto, de apenas duas sílabas, porque estão mais preparados para o ouvir; alimentá-los de acordo com a sua idade e tamanho; recorrer a um jornal, como instrumento basilar à sua educação, e não a actos violentos (como pontapés, estalos, ....), uma vez que se assustam com o baraulho das folhas; envolver comprimidos em comida caseira que os atraia (doces, fiambre, ...) para quando estão doentes e rejeitam a sua alimentação.
Nesse mesmo dia, tive que assegurar a tua sobrevivência, porque não tínhamos comida para ti. Então, contigo ao colo, e, com a ajuda das duas meninas que te trouxeram, fui ao encontro do teu antigo dono perguntar-lhe o que te estava a dar em termos de alimentação. De lá, saí com um saquinho transparente (daqueles destinados aos legumes e às frutas nos supermecados) recheado dos teus biscoitos.
Deu para dois dias, se tanto. Mas, não houve qualquer problema, pois já tínhamos comprado mais.
Nesses primeiros tempos, vivias na marquise, envolta em folhas de jornal, de mantas e de brinquedos, que, com o passar dos dias, foram desaparecendo por obra do espírito santo ou porque íam sendo roídos por ti. Nesses primeiros tempos, espreitava-te pelo postigo da cozinha para ver se respiravas, se comias, se dormias, no fundo, se estavas bem.
Depois, assim que comprámos uma casota, ou, uma caminha, palavra que tu bem conheces, foste estrear o pátio, como área de habitabilidade.
No entanto, por vezes, regressas à marquise em dias de chuva ou naqueles que estás mais frágil fisicamente, sendo o caso mais exemplar o momento em que foste castrada, momento esse em que chorei que nem uma perdida, porque estavas tão mole e tão pedrada que só dormias, não prestando qualquer atenção à comida.
Depois, para que houvesse interacção entre nós, tivemos que te nomear e aqui a dúvida consistiu em eleger, dos inúmeros nomes já atribuídos a colegas teus - Pantufa, Bobi, Boneco, Black, Gastão, Farrusco, Lassie, Fifi, Júnior, Ozzi e Sasa – um que fosse especial, e, olhando para ti, seguindo à risca as sábias palavras da minha madrinha, a minha mãe decidiu chamar-te por um que começa por C, lá está, realmente faz todo o sentido, C de Cão, C de Cookie, Cookie que vem de bolacha, de bolacha tão doce que és.
Cão é cão, mas é para ser tratado como um nosso semelhante, daí haver os Direitos dos Animais, assim como os Direitos Humanos, patentes na Declaração Universal, livros como Cão Como Nós, de Manuel Alegre, Marley & Eu, de John Grogan e Cães como Nós, um dos artigos da jornalista Rita Ferro Rodrigues, publicado no seu Parapeito.
Tu que gostas de papinha boa, isto é, de comida caseira envolvida em biscoitos de cão e de gato, seja fruta, seja doces
Tu que gostas de ir à rua
Tu que gostas de roer ramos das árvores que te trago dos nossos passeios
Tu que gostas de brincar com o teu ossinho, sempre que to atiramos e corres atrás dele para o ires buscar
Tu que gostas de dar hi5´s pata/mão, o que é divertido de se ver
Tu que gostas de colo
Tu que gostas de lamber os nossos pés
Tu que gostas de correr feita louca à entrada do nosso prédio
Tu que gostas de te deitar em cima de roupa lavada, que está a secar na corda, até a puxares ao ponto da mola fazer Pock
Tu que gostas de mordiscar em coisas que não deves, alturas essas em que arranjas, inevitavelmente, sarna para te coçar – baldes do lixo, mangueira, sacos, cabos de esfregona
Tu que gostas, por incrível que pareça, dos dejectos dos teus próprios amiguinhos
Tu que não gostas do barulho dos lixeiros
Tu que não gostas do som do aspirador
Tu que não gostas dos foguetes em épocas festivas
Tu que não gostas de desconhecidos, a quem rosnas com medo, indo esconder-te, depois, na tua caminhaCão que ladra, não morde
Tu que me conheces a mim, à minha mãe, ao João, ou seja, às pessoas que já consideras de casa, a quem reages aproximando-te delas, abandonando-lhes a cauda ou lambendo-lhes, como que cumprimentando-as, porque O cão e o menino vão para quem lhe faz carinho
Serás sempre a minha Cookie, de quem eu vou gostar sempre, por muito que me digam que ladres, que têm medo de ti, que me peçam para te prender para passarem, que isto não é um jardim zoológico, etc, etc e etc, porque a verdade é que Os cães ladram e a caravana passa.

Verdade = Mentira

E porque o que hoje é verdade amanhã já é mentira, decidi arrumar as chuteiras e sentar-me no banco de suplentes a assistir ao jogo.

Uma Compilação de Cadavres Exquis

Para os curiosos que me vierem ler e não souberem o que significa a expressão Cadavres Exquis, aqui fica uma breve explicação acerca da mesma: surge, no início do século XX, precisamente em 1925, com o movimento surrealista francês, que tinha como principal filosofia subverter o discurso literário convencional - embora também se aplique à expressão plástica -, através da intervenção espontânea de cada um dos seus participantes que, a cada jogada, dobram a folha de papel, de modo a que os restantes não visualizem o que foi produzido até então.
Assim, no final, obter-se-á um jogo colectivo que parece não ter pés nem cabeça, não batendo a cara com a respectiva careta, nem bater a bota com a perdigota, daí o seu cariz de Cadáver Esquisito. Espero que agora sim, tenham ficado esclarecidos.

O que é uma bochecha?

É um carro.

O que é a comida chinesa?

É um beijo.

O que é uma ervilha?

É o Quim Barreiros.

O que é uma música mettalica calma?

É o metro a chegar.

O que é um beijo sussurrado?

É o Porto campeão.

O que é ter-se saudades do João Pedro?

É a minha namorada.

O que é ser-se adepto ferrenho do SLB?

É a FCUP.

O que é limpar-se o salão?

É ser-se muito charmosa e ter-se uma voz muito bonita.

O que é fazer-se um charro bem apetitoso?

É ser-se o Dário vira-vira, que canta ó Malhão, Malhão, que vida é a tua, comer e beber, ...

O que é uma fofa?

É uma princesa deitada na minha cama, de quem eu gosto muito.

O que é um destino infiel?

É, ou melhor, são duas fofas na rua que, afinal, são duas fofas.

O que é um decote generoso?

É o 707 40 01, por isso, apressem-se a ligar.

O que é estar vestido das mesmas cores?

É um grande, grande charro que eu adoro fazer.

O que é que faz a lingerie ser tão popular, se o amor é cego?

É uma lambidela da Cookie.

O que é um melisma sussurrado?

É um beijo sussurrado dado por ti: amo-te.

O que é uma reza pela Amy?

É uma bêbeda.

O que é o abono de família?

É o resultado de não se saber o que é o abono de família.

O que é que te torna irresistível?

É haver coisas que não se explicam, porque apenas se sentem, vivem e nunca se esquecem, como o dia 22/04/09 e todos aqueles que se seguiram e se seguirão na tua companhia, meu amor.

O que são sandes de atum?

É amar-te daqui até à Lua, daqui até ao Fim Do Mundo, daqui até ao Infinito, daqui até ao Sem Limites.

O que é que significou o dia para ti?

É querer prolongar estes quase quatro meses ad eternum with you.

O que é um apertar bem?

É dormir a teu lado e saber que acordo mil vezes melhor pelo enooooooooooooooorme mimo que me dás e que espero estar a retribuir.

Porque o cantor desta música se engana várias vezes e diz: "Morre comigo Maria" em vez de "Foge comigo Maria já."

Porque é que estamos a ver o Hérman?

Porque as pernas mais bonitas da música nacional estão no novo programa do Hérman, Nasci Para Cantar.

Por quê que gostamos tanto um do outro?

Porque tu até sabes dançar o moonwalk do já falecido Michael Jackson, por isso, és assim um ser multifacetaaaaaaaaaaaado que eu amo imenso.

Por quê que eu gosto tanto de ti?

Porque, na minha opinião, a palavra omissa, naquela letra dos GNR, era paixão.

Porquê que és a Minha Cleópatra?

Porque estás caído pela menina Melissa, que está a imitar a Nelly Furtado, (e sabes porquê? Porque quem desdenha, quer comprar).

Por quê que é tão bom namorar contigo?

Porque os da Granja não apanharam muitas bolas.

Por quê que me basta olhar para ti para me ver?

Porque hoje não fui apanhado pelo Zé enquanto falava ao telemóvel.

Por quê que eu te amo cada vez mais com o passar dos dias, sabendo que tu partilhas do mesmo sentimento?

Porque toda a gente marcha um dia.

Por quê que as pernas, o rabo, os seios a boca e os olhos são pontos de preferência para vocês homens?

Porque o passe sub-23 é muito giro.

Por quê que agora te divertes a colocar objectos no meu colo?

Porque és um pão em movimento.

Por quê que me dói tantas vezes a barriga? Sabes dizer-me? Gostava taaaaaaaaaaanto de saber.

Porque és a minha nena.

Por quê que tens cócegas nos pés, pelo menos, quando eu te faço?

Porque estamos a ver a Ágata a cantar e canta muito mal.

Por quê que eu engordei nestas férias?

Porque tens muitas cócegas nos pés.

Por quê que eu não me consigo conter em termos sonoros, se é que me faço entender?

Porque hoje estás muito filosófica.

Porque guardei o fim desta folha, já reciclada, para dizer o quanto gosto de ti, muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito!!

Para o meu miúuuuuuuuuuuuudo com orgulho

Boa madrugada, meu doce e amado miúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúdo.
Já há algum tempo que não registava por cá a minha passagem para reflectir, realmente, sobre o que é, de facto, importante para mim, e, como tu te tornaste na pessoa, no miúúúúúúúúúúúúdo mais emblemático da minha vida desde o nosso dia, hoje decidi dedicar-te este pequeno texto, embora já tenha outro na manga, mas só o publicarei depois de o leres e do aceitares como tal. E, quando digo pequeno, é porque pretendo, e prometo, ser mesmo demasiado sintética: "apenas" venho dizer o que sinto por ti. Mas, como pessoa tímida que sou, nunca iria admitir num espaço público, na medida em que se trata de um blogue, do meu blogue, que te amo. Que te amo daqui até à Lua. Seria incapaz de admiti-lo, seria incapaz de admitir que te amo daqui até à Lua num blogue, mesmo que fosse o meu. Com um sussurrado beijinho me despeço. A tua eterna Bochechinha, em versão Cleópatra, cujo sentimento que por ti nutre não cabe, não é mensurável, a uma página de blogue.

Ilha dos Amores

Comente a seguinte citação, num texto expositivo de 200 a 250 palavras: O estatuto do episódio da Ilha dos Amores salienta não só a ilusão da recompensa descrita, mas também a reflexão sobre o valor do prémio a que o Homem deve aspirar.

Esta ilha enamorada e fresca surge aos nautas portugueses como se lhes fosse empurrada pelos sopros de Vénus, a deusa do Amor, que lhes preparou uma recompensa, daí a escolha do número nove para incorporar este canto, é que ele representa o coroar dos esforços. Cantada por Camões no canto IX, é mais um dos artifícios do poeta para mitificar Os Lusíadas que, após terem descoberto o caminho marítimo para a Índia, nesta Ilha dos Amores, encontrarão belas deusas que, ensinadas por Citareia, caçá-los-ão.
Sendo resultado da imaginação humanista, esta ilha não existe geograficamente, o que explica todo o seu ambiente paradisíaco, típico do Renascimento, sintetizado na expressão latina locus amoenus. É nesta frescura de ilha que os portugueses, através da sua relação física com as ninfas, conquistam a imortalidade, tornando-se deuses. Assim, ficam realizadas as profecias de Baco que, com receio de ser substituído por este bicho de serra tão pequeno, se opõe a ajudá-los, afirmando que, se continuarem a progredir, os deuses deixarão de o ser. Mas, como será isto possível? Não será uma contradição um bicho destes conseguir ultrapassar-se a si mesmo, ao ponto de se ir da morte libertando?
Não. É exactamente este espírito de aventura, de querer ir sempre mais além, apesar dos inúmeros perigos, que nos faz ainda hoje aspirar com uma outra vida, onde gozaremos de um estatuto divino, com o qual, nesta primeira, nos procuramos identificar. Enquanto a vivemos, conhecemos a verdade, graças à partida, um dia, dos nossos heróis por mares nunca dantes navegados.

Diálogo entre Palavras

Depois do corre-corre, característico de um segundo ano académico, é natural que haja agora mais tempo, mesmo que estejamos ainda numa fase de pseudo férias, uma vez que não me poderei esquecer dos próximos exames, tanto de melhoria como de recurso, para se folhear memórias passadas. E foi exactamente isso que fiz, há dias, debruçando-me no conjunto de materiais que compõem o meu portefólio de Literatura Portuguesa, vindo a encontrar, dentro desse mesmo leque, dois textos que considerei interessantes serem publicados neste meu blogue, já que o seu maior ingrediente é a minha experiência (depois, é que se acrescenta a imaginação): um, associado ao Diálogo entre Palavras, e um outro, intimamente subjacente ao estudo de Os Lusíadas, nomeadamente, ao seu nono canto, pois é nele que viajamos para um outro mundo, para uma outra Ilha, a dos Amores.
Diariamente, temos conhecimento da chegada de novas palavras, vulgarmente designadas como neologismos, à nossa Língua, como substituto das mais antigas, isto é, dos arcaismos, o que provoca nestes revolta, sentimento esse que está bem patente no diálogo que seguidamente será transcrito.
Idosa – Olá! Será que poderei falar consigo?
Cota – Claro que sim. Na boa, pá. Mas, antes de mais, diz-me uma coisa: quem és tu?
Idosa – Quem sou eu? Não sabe quem eu sou?! Pois, então, vejo que estamos em pé de igualdade, porque também desconheço quem seja e que qualidades específicas é que possui para se apoderar do meu lugar.
Cota – Eu? Apoderar-me do teu lugar? Estás a insinuar que to roubei? Hmmm? Não estou mesmo a perceber onde é que pretendes chegar com esta conversa. És capaz de me trocar isso por miúdos?
Idosa – Nem mais. O que se passa é o seguinte: por sua causa, ou melhor, graças à sua feliz existência, eu caí em desuso, percebe? Por outras palavras, fiquei fora da validade: será que fui agora suficientemente clara?
Cota – Ahhh!!! Sim, sim!! Agora, sim!! Perfeitamente, aliás! Mas, será só esse o motivo responsável pelo despoletar de tanta arrogância da tua parte à minha pessoa?
Idosa – Só??? Vê-se mesmo que não tem estrutura suficiente para perceber o quão significativa é essa mudança na minha vida, que não consegue perceber, de uma vez por todas, que, por agora estar in, eu estou out para os falantes da Língua Portuguesa.
Cota – Oh!!! Tanto drama não sei para quê!! Não te preocupes que eles já sabem que tu já estás demasiado cota, e, que, portanto, o que necessitas, neste preciso momento, é de descanso, daí permaneceres numa comum página de dicionário.
Idosa – Que rica amiga me saiu!!! Ainda troça da minha situação?! Pois bem, parece-me, então, que o povo tem realmente razão, ao proferir o provérbio Vozes de burro não chegam ao céu. Contudo, deixo-lhe um breve conselho: como agora está in, esquece-se que a Língua é um organismo vivo, e, como tal, em permanente evolução, logo, daqui por uns anos, os jovens, sendo donos de uma imensa criatividade, já se terão lembrado de criar uma outra palavra para a reciclar, e, nessa altura, terei todo gosto em recebê-la no meu dicionário.
Cota – Ei??? Qual é a tua?! Agora, deu-te para fazeres futurologia, é?? O que tu tens sei-o eu: chama-se dor de coto. É lixado não se desfrutar da fama de tempos idos, não é?! Então, relaxa nessa tua página de brevete de dicionário, que já de tão cota, se encontra amarelada!
Idosa – Quem ri por último, ri melhor.

O Bob, o rapaz dos n ofícios

O texto que se segue nasce de uma conversa que tive com a Minha Ervilha, esta sexta-feira, já a caminho de casa, acerca da personagem infantil o Bob, o Construtor. Depois, claro está, que trauteámos a música que lhe está associada, embora alterássemos o seu atributo. O resultado multidisciplinar está à vista de todos, daí intitular-se O Bob, o rapaz dos n ofícios: que multifacetado que ele é! xD

Eu sou o Bob,
o Construtor.

Eu sou o Bob,
o Ilustrador.

Eu sou o Bob,
o Apicultor.

Eu sou o Bob,
o Gestor.

Eu sou o Bob,
o Agricultor.

Eu sou o Bob,
o Velejador.

Eu sou o Bob,
o Jogador.

Eu sou o Bob,
o Escritor.

Eu sou o Bob,
o Pintor.

Eu sou o Bob,
o Varredor.

Eu sou o Bob,
o Consultor.

Eu sou o Bob,
o Actor.

Eu sou o Bob,
o Ilustrador.

Eu sou o Bob,
o Professor.

Eu sou o Bob,
o Lenhador.

Eu sou o Bob,
o Lavrador.

Eu sou o Bob,
o Compositor.

Eu sou o Bob,
o Orquestrador.

Eu sou o Bob,
o Realizador.

Eu sou o Bob,
o Apresentador.

Eu sou o Bob,
o Animador.

Eu sou o Bob,
o Investigador.

Eu sou o Bob,
o Condutor.

Eu sou o Bob,
o Organizador.

Eu sou o Bob,
o Instrutor.

Eu sou o Bob,
o Pastor.

Eu sou o Bob,
o Cantor.

Eu sou o Bob,
o Inspector.

Eu sou o Bob,
o Monitor.

Eu sou o Bob,
o Nadador.

Eu sou o Bob,
o Administrador.

Eu sou o Bob,
o Caçador.

Eu sou o Bob,
o Historiador.

Eu sou o Bob,
o Provedor.

Eu sou o Bob,
o Narrador.

Eu sou o Bob,
o Segurador.

Eu sou o Bob,
o Mediador.

Eu sou o Bob,
o Estofador.

Eu sou o Bob,
o Vereador.

Eu sou o Bob,
o Bombeiro Sapador.

Eu sou o Bob,
o Formador.

Eu sou o Bob,
o Prior.

Eu sou o Bob,
o Canalizador.

Eu sou o Bob,
o Vinicultor.

Eu sou o Bob,
o Restaurador.

Eu sou o Bob,
o Acessor.

Eu sou o Bob,
o Arboricultor.

Eu sou o Bob,
o Agrimensor.

Eu sou o Bob,
o Argumentador.

Eu sou o Bob,
o Arrumador.

Eu sou o Bob,
o Criador.

Eu sou o Bob,
o Senhor Doutor.

Eu sou o Bob,
o Embaixador.

Eu sou o Bob,
o Treinador.

Eu sou o Bob,
o Aviador.

Eu sou o Bob,
o Gladiador.

Eu sou o Bob,
o Eleitor.

Eu sou o Bob,
o Destruidor.

Eu sou o Bob,
o Conquistador.

Eu sou o Bob,
o Observador.

Eu sou o Bob,
o Abusador.

Eu sou o Bob,
o Encantador.

Eu sou o Bob,
o Zelador.

Eu sou o Bob,
o Mal-Feitor.

Eu sou o Bob,
o Salvador.

Eu sou o Bob,
o Terror.

Eu sou o Bob,
o Leitor.

Eu sou o Bob,
o Raptor.

Eu sou o Bob,
o Sedutor.

Eu sou o Bob,
o Vibrador.

Eu sou o Bob,
o Agressor.

Eu sou o Bob,
o Afagador.

Eu sou o Bob,
o Fumador.

Eu sou o Bob,
o Admirador.

Eu sou o Bob,
o Blasfemador.

Eu sou o Bob,
o Adulador.

Eu sou o Bob,
o Falsificador.

Eu sou o Bob,
o Dador.

Eu sou o Bob,
o Transgressor.

Eu sou o Bob,
o Vencedor.

Eu sou o Bob,
o Perdedor.

Eu sou o Bob,
o Sonhador.

Eu sou o Bob,
o Gastador.

Eu sou o Bob,
o Lutador.

Eu sou o Bob,
o Sofredor.

Eu sou o Bob,
o Respeitador.

Eu sou o Bob,
o Atormentador.

Eu sou o Bob,
o Madrugador.

Eu sou o Bob,
o Indagador.

Eu sou o Bob,
o Trabalhador.

Eu sou o Bob,
o Acusador.

Eu sou o Bob,
o Ajuizador.

Eu sou o Bob,
o Assobiador.

Eu sou o Bob,
o Cumpridor.

Eu sou o Bob,
o Falador.

Eu sou o Bob,
o ...

Se não nascesses, serias inventada, ó Ana, Catian

Há dias, uma professora lá da minha faculdade, pedia-me para ler um pequeno excerto de uma obra - Uma Noiva Bela, Belíssima - ou com ilustrações e texto, ou com apenas este, colaborando, assim, num estudo que estava a desenvolver. De imediato, aceitei. Gosto de ler e o saber não ocupa lugar. Depois, quando se fala em Educação Básica, dá-nos um jeitaço, como fututros educadores deste país, socorrermo-nos das histórias para trabalharmos temáticas, conteúdos, valores, entre outros aspectos relevantes na sua formação como cidadãos conscientes, autónomos, reflexivos e críticos.
Assim sendo, a mim, calhou-me o que continha apenas o texto, apercebendo-me de que, tal como já tinha sido avisada, aquilo se tratava de um excerto, logo, o enredo podia não estar todo contado, descoberto. Foi, aliás, o que aconteceu. Estava reticente, completamente em aberto...à espera de um final subjectivo, que partisse de cada um dos jovens envolvidos neste projecto, mal nos chegasse o e-mail enviado pela professora.
E agora? Agora? Agora o que se segue é, deveras, surreal, mas garanto e confirmo: aconteceu mesmo. Hoje. Divulguei que o e-mail que abria vinha em linguagem musical, e não em linguagem comum, vulgar, do nosso código escrito. Espanto e gargalhada total na sala de aula, ao ponto de me terem descoberto uma possível vocação: freira carmelita, já que, quando me pedem segredo, sei ao que se referem e sei guardá-lo literalmente. Literalmente bem guardado. Vocês sabem o quanto.
Mas, não satisfeita com o resultado, decidi seguir a pista da docente e tentar alterar o nome do já mencionado documento recebido para ".Doc". Mas quê? Pensam que me adiantou alguma coisa? Nada. Tentei, tentei e nada.
Então, enviei um e-mail à professora a explicar o ressucedido, anexando o ficheiro em causa. E, se pensam que mais estranho do que isto não podia jamais aparecer, desenganem-se, dado que a resposta foi: Mas esse é tal e qual o inquérito ao qual as suas colegas responderam. De facto, a tecnologia ainda nos surpreende. Quando isto acontece, é porque a outra linguagem é superiror à nossa.
Depois, com a tua ajuda, lá consegui aceder ao tal inquérito e prosseguir, elaborando as derradeiras respostas, sendo a antepenúltima a minha visão muito subjectiva da história da Filomena e do Ferruccio.
Na minha opinião, julgo que a Filomena, depois de ter percorrido um bom pedaço de tempo, deve-se ter deparado com o seu amado e lhe ter explicado o porquê de tanta agitação: sempre sonhara com aquele momento, que queria estar à altura das princesas de que tanto ouvia falar nos contos de fada, mas que o sucedido não alterava o seu sentimento por ele. Que, interiormente, tudo se mantinha. Que era igual. Não, mentira. Igual não. Não podia ser jamais igual. Maior, sim. Muito maior. Era maior. Tinha agora medo de o perder. Via-o triste, envergonhado, cabisbaixo e calado. Apenas a ouvi-la e a olhá-la. A mirá-la. De cima abaixo. Depois, já emocionado, com as lágrimas a escorregarem-lhe pelo rosto percebeu que era a sua vez de falar e disse-lhe as seguintes palavras: Sabes? Quem tudo quer, tudo perde. Espero que te tenha servido de lição. Além do mais, as pessoas não se gostam, não se falam, não coabitam, não se tornam cúmplices uma da outra pelas marcas que vestem, pelo perfume que usam, pelos livros que lêm, pelas lojas que visitam, pelo dinheiro que têm. As pessoas gostam-se, falam-se, coabitam, tornam-se inseparáveis cúmplices uma da outra, porque, para lá de tudo, que é terreno e palpável, o coração fala mais alto, e, o meu, já que lhe posso dar voz, diz-me, cada vez mais alto, que te amo, por isso, não me importa como estás trajada, interessa-me sim saber se estás bem. Ela, já igualmente enternecida, e chorosa, agora de alegria, abanou a cabeça, como quem afirma positivamente, tendo ambos percebido que já não pertencíam àquele espaço. Então, abraçaram-se e partiram para um mundo só deles, onde não havia lugar para o medo, incerteza ou desconfiança. Porquê? Porque não havia razão para isso. Imperava o amor. Aliás, era esse o oxigénio desse mundo, é esse oxigénio que os mantem eternamente vivos e apaixonados.

Se eu fosse

Se eu fosse um objecto,
seria a almofada.
Se eu fosse uma cor,
seria o azul turquesa.
Se eu fosse um filme,
seria La vita è bella, do italiano Roberto Benigni.
Se eu fosse um livro,
seria O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry.
Se eu fosse uma flor, seria o malmequer.
Se eu fosse um animal,
seria o gato.
Se eu fosse uma compositora,
seria a Mafalda Veiga.
Se eu fosse um compositor,
seria o Jorge Palma.
Se eu fosse um grupo musical,
seria o Flor-de-Lis.
Se eu fosse uma melodia,
seria a Viva la Vida, dos emblemáticos Coldplay.
Se eu fosse uma paisagem,
seria a praia.
Se eu fosse um programa de televisão,
seria o Conta-me Como Foi.
Se eu fosse uma cidade,
seria a de Veneza.
Se eu fosse um número,
seria o sete.
Se eu fosse um signo,
seria o Virgem.
Se eu fosse um mês,
seria o de Setembro.
Se eu fosse um dia,
seria o nove.
Se eu fosse um ano,
seria o de mil novecentos e oitenta e nove.
Se eu fosse um escritor,
seria Saramago.
Se eu fosse um poeta,
seria o Fernando Pessoa.
Se eu fosse uma autora,
seria Sophia de Mello Breyner Andersen.
Se eu fosse uma refeição,
seria as pataniscas de bacalhau, acompanhadas por um belo arroz de feijão vermelho.
Se eu fosse um doce,
seria o chocolate branco.
Se eu fosse uma sobremesa,
seria salada de fruta sem álcool e com casca.
Se eu fosse uma peça de fruta,
seria a cereja.
Se eu fosse uma peça de roupa,
seria o fato de treino.
Se eu fosse calçado,
seria as sabrinas.
Se eu fosse um acessório de moda,
seria o colar.
Se eu fosse um carro,
seria o Mini.
Se eu fosse um instrumento musical,
seria a gaita de beiços.
Se eu fosse uma rua,
seria a dos Prazeres.
Se eu fosse um momento do dia,
seria a noite.
Se eu fosse uma atitude,
seria a frontalidade.
Se eu fosse um valor,
seria o respeito.
Se eu fosse um sentimento,
seria a saudade.
Se eu fosse um verbo,
seria o escrever.
Se eu fosse uma palavra,
seria a saudade.
Se eu fosse uma frase,
seria Fazes-me Falta!
Se eu fosse um ditado popular,
seria Só dependemos de nós próprios.
Se eu fosse uma revista,
seria a Visão.
Se eu fosse um jornal,
seria O Público.
Se eu fosse um blogue,
seria a Escrita Afiada.
Se eu fosse uma profissão,
seria a de professora do primeiro ciclo do Ensino Básico.
Se eu fosse uma professora do primeiro ciclo do Ensino Básico,
seria a Maria Fernanda.
Se eu fosse uma parte do corpo humano,
seria os olhos.
Se eu fosse uma disciplina curricular,
seria a Língua Portuguesa.
Se eu fosse um sinal de pontuação,
seria a vírgula.
Se eu fosse um canino,
seria a Cookie.
Se eu fosse um rapaz,
seria o Pedro.
Se eu fosse um amigo,
seria o Nuno.
Se eu fosse um namorado,
seria o Tito.
Se eu fosse um nome,
seria a Ana.
E, é aliás, como Ana, que me despeço.
Até à próxima loucura desta minha Escrita Afiada!!

Odeio-te

Odeio-te.
Odeio-te a cada dia que passa. A cada dia que passa, aumenta o meu ódio por ti. A cada dia que passa, torna-se mais visível: ganha rosto, peso e relevo. Aliás, por ti, já nada sinto (o pouquíssimo que restava, felizmente, evadiu-se, ou seja, hoje, odeio-te, amanhã, odiar-te-ei mais, e assim sucessivamente. E assim sucessivamente, sempre num profundo crescendo.), ou melhor, sinto. Sinto ódio. Um profundo profundíssimo íssimo ódio. Sim. Ódio. Ódio, ódio e mais ódio.
Ódio.
Sim, ódio.
Odeio-te por tudo.
Pela diferença.
Pelo cinismo.
Pela cobardia.
Pelo exibicionismo.
Pela arrogância.
Pelo egoísmo.
Pela falsidade.
Pelo racismo.
Pela discriminação.
Pelo preconceito.
Pela invasão de privacidade.
Pelo discurso "vitimizatório", do "coitadinho".
Pela ditadura.
Pelo bem-estar com o mal alheio.
Pela censura.
Pelo chamar à atenção, como se o mundo girasse à tua volta. À volta desse teu umbigo. Tão enganado!
Odeio-te!
Para ti, sempre fui a incerteza.
Os outros, a certeza.
Para ti, sempre fui a indisciplina, a desobediência, a resposta pronta.
Os outros, a disciplina, a obediência, a resposta pensada.
Para ti, sempre fui o erro, a falha.
Os outros, a correctude, a exactidão.
Para ti, sempre fui o mal.
Os outros, o bem.
Para ti, sempre fui o pólo negativo.
Os outros, o pólo positivo.
Para ti, sempre fui o negro.
Os outros, um lindo arco-íris.
Para ti, sempre fui o nada.
Os outros, o tudo.
Para ti, sempre fui a tristeza.
Os outros, a alegria de viver.
Para ti, sempre fui a morte.
Os outros, a vida.
Para ti, sempre fui o avesso.
Os outros, o direito.
A vida trocou-te as voltas, daí a tua frustação (e o teu consequente desejo que o mesmo em mim se repita), mas creio que terás azar: já pouco falta para te provar (embora não tenha que te evidenciar nada. Rigorosamente nada. A vida, por si só, tratará de te dar umas boas chapadas) que as inúmeras Raquéis, por aí existentes, convertidas em incertezas, em indisciplina, em desobediência, em grandes nadas, em erros, em verdadeiros falhanços, em avessos, em perigos, em tristezas, em mortes, também têm o seu valor. Também são pessoas. Sim, Pessoas. Aliás, são essas mesmas Pessoas que tu desprezas, que mais vingarão adiante, porque a Vida fez o favor de as moldar desde muito cedo.
Sabes que mais?
Odeio-te.
Adeus.
Morre longe.
Longe?
Não.
Bem longe. Muiiiiiiito longe.
E devagar.
Bem devagarinho.
Será excesso de palavreado ausente de eufemismos?
Não.
Puro ódio.

La vita è bella

A vida é um carrocel de descobertas:
apreende-o!
A vida é uma eterna aprendizagem:
escuta-a!
A vida é um jogo:
joga-o sem desistir (é que desistir é batota)!
A vida é um hino:
canta-o!
A vida é um dever:
cumpre-o!
A vida é um desafio:
enfrenta-o!
A vida é um sonho:
realiza-o!
A vida é uma tragédia:
domina-a!
A vida é um mistério:
desvela-o!
A vida é uma aventura:
afronta-a!
A vida é felicidade:
merece-a!
A vida é riqueza:
conserva-a!
A vida é beatificação:
saboreia-a!
A vida é uma missão:
supera-a!
A vida é uma dádiva:
preserva-a!
A vida é ouro:
cuida-o!
A vida é uma viagem:
arrisca-te nela!
A vida é um labirinto:
desnuda-o, sem te perder!
A vida é uma oportunidade:
aproveita-a!
A vida é uma segunda mãe:
acolhe-a!
A vida é a vida:
vive-a!
defende-a!
defende-a com um unhas e dentes!!

Se

Se
Hmmm...
E,
Se porventura,
E,
Se eventualmente,
E,
Se excepcionalmente,
E,
Se hipoteticamente,
Tudo fosse preto e branco?
Hmmm...
Se tudo fosse preto e branco, ...
Se tudo fosse preto e branco,
Tudo era muito mais simples.
Se tudo fosse preto e branco,
Tudo era muito mais claro.
Se tudo fosse preto e branco,
Tudo era muito mais justo.
Se tudo fosse preto e branco,
Não havia distinção entre este e aquele.
Se tudo fosse preto e branco,
Não havia distinção entre isto e aquilo.
Se tudo fosse preto e branco,
Não havia meio termo
(Ou é ou não é).
Se tudo fosse preto e branco,
Não havia comparação.
Se tudo fosse preto e branco,
Não havia tonalidades de cor
(Ou era preto ou era branco).
Mas,
E,
Se, por instantes,
E, se por instantes, tudo fosse preto e branco??
Ora, isso é que ia ser!!!
Mas,

E
Só se
E só se
Se tudo
Tudo
Se tudo fosse
Se tudo fosse preto e branco.

Entrevista a Alberto Caeiro

Esta tarde temos connosco um convidado muito especial, o poeta das sensações, assim conhecido pelo grande público. De seu nome Alberto Caeiro, loiro sem cor, de olhos (azuis) claros, de cara rapada e de estatura média, nasceu em Lisboa, a 1889, apesar de ter vivido, quase toda a sua vida, no campo, como camponês que o era. Perdeu os pais cedo, deixando-se ficar em casa, na companhia de uma tia velha, tia-avó, de parcos rendimentos, o que, talvez, explique a sua pouca instrução – quase nenhuma – apenas a primária, e a inexistência de qualquer profissão. Contudo, é considerado o mestre entre os heterónimos pessoanos, inclusive pelo próprio ortónimo, ao ser um poeta enigmático e complexo, ligado à Natureza, que despreza e repreende qualquer tipo de pensamento filosófico, afirmando que o pensar nos retira a visão, uma vez que não nos permite ver o mundo tal e qual como ele é: simples e belo. Convidámo-lo a vir conhecer melhor este vulto da Literatura Portuguesa Contemporânea.


1. Boa tarde, mestre Alberto Caeiro, o que pensa sobre o mundo que o rodeia?

Alberto Caeiro (que, futuramente, será apenas designado como A. C.): O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso eu do Mundo! Se eu adoecesse, pensaria nisso, porque pensar é estar doente dos olhos. Apenas creio no mundo como um malmequer, porque o vejo, mas não penso nele. O mundo não se fez para pensarmos nele, mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

2. Estar de acordo com ele é ter uma relação íntima com a Natureza? Podia explicar-nos um pouco melhor esta sua expressão?

A. C. : Estar de acordo com ele é ter como casa artística a Terra toda, é pensar numa flor, é vê-la, é cheirá-la, é...

3. Então, nessa linha de pensamento, os seus sentidos, o que sente, são os seus pensamentos?

A. C. : Sem dúvida. Não se pode esquecer que eu sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todas as sensações, por isso, é que penso com os olhos, e com os ouvidos, e com as mãos, e com os pés, e com o nariz, e com a boca.

4. Se as suas sensações são pensamentos, então, propõe uma não filosofia, resultante de uma poesia natural e espontânea, oriunda dessa identificação do sujeito poético com a Natureza, onde nada há para corrigir, nem para pôr, nem para tirar?

A. C. : Sim, eu não tenho filosofia. Tenho sentidos. Para além de que pensar incomoda como andar à chuva, quando o vento cresce e parece que chove ainda mais.

5. Essa é a concepção de poesia que defende. Que opinião tem acerca da que é feita pelos outros poetas, através da leitura dos versos que tem analisado até agora?

A. C : Li hoje duas páginas de um poeta místico e ri como quem tem chorado muito, pois, na minha opinião, os poetas místicos são filósofos doentes, e os filósofos são homens doentes por dizerem que as flores sentem, que as pedras têm alma e os rios êxtases ao luar.

6. Como se sente, quando redige a prosa dos seus versos?

A. C. : Fico contente, porque sei que compreendo a Natureza por fora; e não a compreendo por dentro, porque a Natureza não tem dentro, se não, não era a Natureza. O mesmo acontece às flores, às pedras e aos rios, pois nenhum deles sente, pois nenhum deles tem alma ou êxtases ao luar, porque, se os tivessem, eram gente, ou melhor, seriam homens doentes.

Assim, ficámos a conhecê-lo melhor, ao mestre, que apareceu de pura e inesperada inspiração a Pessoa, daí que Caeiro afirme que o pensar implica a entrada num mundo complexo e problemático, onde tudo é incerto e obscuro. Defende, então, o real, isto é, a própria exterioridade que não necessita de subjectivismos, repreendendo qualquer pensamento filosófico, proclamando-se um antimetafísico, porque, no seu entender, a interpretação do real, pela inteligência, reduz as coisas a meros conceitos.
No fundo, Caeiro, esse nosso eterno mestre, acredita que os seres simplesmente são e nada mais, irritando-se com a metafísica ou outra qualquer simbologia escolhida como guia para a vida.
Aqui fica o nosso muito obrigado por ter acedido ao nosso convite, ou seja, ter dialogado connosco, privilegiando-nos com a sua sapiência.

Ser Professor

Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...
Ser Professor é ser Artista,
Malabrista,
Pintor,
Escultor,
Doutor,
Músico,
Sociológo,
Psicólogo.

Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...
Ser Professor é ser Mãe,
É ser Pai,
É ser Avô,
É ser Avó,
É ser Primo,
É ser Prima,
É ser Irmão,
É ser Irmã.

Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...
Ser Professor é ser Palhaço,
É ser Actor,
É ser Ciência,
É ser Paciência,
É ser Informação.

Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...
Ser Professor é ser Acção,
É ser Bússola,
É ser Farol,
É ser Luz,
É ser Sol.

- Incompreendido?
- Sempre.

- Defendido?
- Nunca.

- Ó Dona Adelaide, o seu filho passou?
- Claro, Senhora Maria. Ele é um génio, não sabia?
- Ó Dona Adelaide, o seu filho passou?
- Não, não passou, Senhora Maria.
- Pois, como havia de passar?! O professor não ensinou!!!...

Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...

- Ser Professor é ser um Vício
- Ou...
- Ou será uma Vocação?!

- Não. Não é uma coisa, nem outra.
- Então?
- É, de facto, outra. Outra coisa.
- Mas, que outra? Não estou a entender...
- É ter nas mãos o futuro de amanhã.

Amanhã...
Oh...
Amanhã, os alunos vão-se
E ele, o mestre, de mãos vazias,
Fica com o coração partido.

E, no entanto, tudo volta ao normal. Tudo recomeça.

Novos anos chegam,
Recebe novas turmas,
Novos olhinhos ávidos de Cultura,
E ele, o Professor, vai despejando,
Com toda a ternura, o Saber,
A Orientação,
Nas tenras cabecinhas que, amanhã,
Que, amanhã, luzirão no firmamento da pátria.

De tudo isto, o que lhe resta?
Resta-lhe a Saudade,
A A mizade,
O Pagamento Real?
Só...só na Etermidade!!!


Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...
Ser Professor é ser Artista,
Malabrista,
Pintor,
Escultor,
Doutor,
Músico,
Sociológo,
Psicólogo.

Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...
Ser Professor é ser Mãe,
É ser Pai,
É ser Avô,
É ser Avó,
É ser Primo,
É ser Prima,
É ser Irmão,
É ser Irmã.

Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...
Ser Professor é ser Palhaço,
É ser Actor,
É ser Ciência,
É ser Paciência,
É ser Informação.

Ser Professor
Hmmm…ser Professor é...
Ser Professor é ser Acção,
É ser Bússola,
É ser Farol,
É ser Luz,
É ser Sol.

- Incompreendido?
- Sempre.

- Defendido?
- Nunca.

- Ó Dona Adelaide, o seu filho passou?
- Claro, Senhora Maria. Ele é um génio, não sabia?
- Ó Dona Adelaide, o seu filho passou?
- Não, não passou, Senhora Maria.
- Pois, como havia de passar?! O professor não ensinou!!!...

Ser Professor
Hmmm…ser professor é...

- Ser Professor é ser um Vício
- Ou...
- Ou será uma Vocação?!

- Não. Não é uma coisa, nem outra.
- Então?
- É, de facto, outra. Outra coisa.
- Mas, que outra? Não estou a entender...
- É ter nas mãos o futuro de amanhã.


Hummm...ser-se Professor em Portugal,!!!!!....

Turbulência

Hoje não me apetece nada. Falar, ver tv, dormir. Tudo me faz chorar. O falar, o ver tv, o dormir. Porquê esse choro, beibinho?, perguntarás tu, ao que te respondo: Pergunta desnecessária.
E não, não te sintas culpado, porque, desde logo, me foste fazendo o favor de me lembrar que nunca, mas mesmo nunca, me poderias dar o que quero, o que procuro, que nunca me poderias corresponder: tens namorada.
Eu é que me fui iludindo, criando possíveis cenários contigo. Sempre a teu lado. Sempre tu como pano de fundo.
Porquê?
Porque, por mais irrisório que possa parecer, sinto-me bem contigo, “fazes-me bem”, há química (ou será que já houve?), mesmo quando dizes que mudei, que deixei de ser aquela rapariga diferente que conheceste, KGB, pela qual te sentias atraído (corporalmente falando, claro está!) para me tornar numa miúda burra, irresponsável, desequilibrada, bregeira, atrevida, doida por sexo (eu traduzo: tarada, em português corrente) e oferecida (se contarmos com a existência dos tais dois rapazes cujas idenditades e vozes - reais, não virtuais – desconheço).
Lamento.
Devo ser mesmo doida.
Enfim...
A verdade é que, já há algum tempo, que me sinto incompleta.
Inacabada.
Por preencher.
Talvez por ser (mais uma) mera miúda burra, irresponsável, desequilibrada, bregeira, atrevida, doida por sexo (eu traduzo: tarada, em português corrente) e oferecida (se contarmos com a existência dos tais dois rapazes cujas idenditades e vozes - reais, não virtuais – desconheço).
E, preencher por passatempo, preencher de fugida não é solução.
Só alimenta falsas expectativas, muitos “se” (s) à volta de uma “realidade”, ainda, por construir. Por isso, se, algum dia, te vieres a lembrar de mim, por vontade própria, tenta demonstrá-lo, afirmando que estou/estive errada relativamente à tua pessoa.
Até lá, desejo-te as maiores felicidades do mundo para a tua vida, família e projectos (ciclismo, entre outros).
A 16 de Agosto, salvo erro, sublinharíamos um ano de cumplicidade.
Cumplicidade apressada.
Cumplicidade sem tempo.
Cumplicidade de foge-foge.
Sempre fora do tempo.
Sempre fora de horas.
Cumplicidade omissa.
Terei matado alguém nesta vida?
Ou será que cometi um outro crime, igualmente punível, numa outra?
Porém, no fundo, sabes o que sinto por ti, esse é que é o grande embargo, esse grande impasse (e passo o pleonasmo) impossível de ser sarado.
Como criança infantil e fútil que sou, ainda vivo no mundo cor-de-rosa, onde tudo – tudo – tem um final feliz.
Risonho.
Mas, nem sempre assim é.
Nem sempre as grandes histórias assim findam.
Bem, vou deixar-me (a mim e a ti, a bem dizer) por agora.
Estou cansada.
Cansada de viver entre vidas, através de livros de faz-de-conta.
Livros do Irreal,
Do Mágico,
Do Ilusório.
Cansada do mundo intelegível.
Tenho sede do Real,
Do Concreto,
Do Palpável.
Tenho saudades (sou portuguesa e basta!) do que éramos juntos, do que partilhávamos.
Partilhávamos tudo.
Ou quase tudo.
Dizias-me que podias confiar em mim como em ninguém, condição suficiente (e necessária) para me contares as tuas experiências:
Lembras-te?
Foi há tanto tempo!!!
Partilhávamos conversas.
Partilhávamos momentos.
Partilhávamos olhares.
Partilhávamos carícias.
Partilhávamos afectos.
Partilhávamos abraços quentes.
Partilhávamos sussurros ofegantes à orelha.
Partilhávamos beijos.
Partilhávamos o corpo um do outro.
Partilhávamos essa descoberta apaixonante.
No tempo em que existia o “nós”...
Tempo (que parece) passado.
Tempo denominado Pretérito Imperfeito pela tua distância actual em detrimento de uma tentativa de aproximação em relação a mim.
Descansa...
Ainda te amo.
Sabes que mais?
Tens razão
(sempre a tiveste):
The wrong time, the wrong space.
Ich liebe dich
Baci

A tua eterna Rachel

De A a Z

Acorda, Ana! Já é tarde!
Ok!, eu levanto-me!
E acordo, e ando, e acordo e ando e vagueio, e vagueio, vagueio e vagueio...mas, muito sinceramente:
Basta!!!
Chega!
Cansei-me!
Culpei-me!
Corroí-me!
Dói-me o corpo!
Dói-me a alma!
Dói-me o
Espírito!
Fartei-me (resumindo e concluindo)!!
Sabes?
Ganhei juízo, ganhei dignidade por mim própria!
Hoje, já não me conhecerias!
(Pudera!!)
Igual ao que fui contigo já não serei mais!
Jamais, ouviste?!
Lembrei-me de mim!!
Lembrei-me que (ainda) estou viva!
Afinal, estar vivo é ("") o contrário de se estar morto!
(Verdade de La Palice)
Milagre!, dirás tu
Não, não é um milagre, é o que te respondo.
Ou melhor,
Mais do que isso,
Mais do que um hipotético milagre, é o virar da página.
Para mim, é o que representa.
Que tudo acabou,
Que tu (finalmente!) perdeste aquele clique especial (que de especial, bem vistas as coisas, nada tinha, porque especial e essencial se restringem exactamente aos bens essencias, àqueles que não prescindimos, àqueles sem os quais não conseguimos viver, e eu sem ti, vivo lindamente, diga-se de passagem),
Que tu desapareceste do meu mapa emocional,
Que tu morreste.
Realmente, já era hora.
Hora de reçomeçar.
Recomeçar do zero.
Sozinha.
Sem sombra de dúvidas.
Tchau!
Vou deixar-te (finalmente!)!
Uffa!
Que alívio!
Missão cumprida!
Vou dormir.
Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu!
Não ouviste?
És surdo?
Quero descansar!
Quero silêncio!
Cala-te!
Deixa-me!
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

Bloqueio

Não!
Não consigo!!
Por mais que tente, por mais que me esforce, não consigo!!!
Tento escrever sem pensar em ti, mas inundas-me o cérebro num turbilhão de sensações tal que não consigo distinguir o que é bom do que é mau!
Estou num beco sem saída!
Estou como um tolo no meio da ponte sem saber que caminho hei-de rumar!
Exactamente como um tolo.
Como um tolo, ouviste?
Como um tolo apaixonado.
Como um louco.
Verdadeiramente louco.
Chego a crer que é bom pensar em ti.
Contudo, por vezes, julgo que és uma tortura!
E que tortura!
Que tormento!!
Não!!!!
Não consigo encontrar as palavras certas!!!
Não sei bem o que te hei-de dizer: se te diga que te amo, que te venero ou, se, pelo contrário, te diga que te odeio, que me repugnas!
Que incerteza!!!
Quero fugir de tudo o que nos liga!
Fugir de tudo o que nos liga só quando não me apetece ter-te ao pé de mim, porque, nos momentos em que pretendo ter-te não longe, mas por perto (bem pertinho), anseio-te enroscada em mim, anseio-te deitada sob o meu peito enquanto dormes, enquanto sinto os teus cabelos escorregarem por entre os meus dedos, anseio sentir o teu aroma que se entranha na minha roupa, que se entranha na minha pele, que se mistura na química do meu corpo, anseio apertar-te com um forte abraço, com aquele abraço (que tu bem conheces) interminável, abraço com o qual parece que nunca te irei largar.
E não!
Não te largava!!
Não te largava nunca, por nada deste mundo, nem do outro, se assim pudesse!!!
Ai, se eu pudese,...!!!...
E, sempre que faço este simple gesto, mergulho num mar sereno e quente.
Num mar sereno e quente chamado Paixão.
Ou melhor, num mar sereno e quente chamado Perdição.
Sim, chamado Perdição.
Porque é nesse mar sereno e quente que me vicio,
Porque é nesse mar sereno e quente que me perco,
Porque é nesse mar seren e quente que enlouqueço sempre que tu és minha e eu sou teu!!
Sou prisioneiro de ti e quero ser Livre!!
Livre, estás a ouvir-me?
Livre!!
Livre com todas as letras!
L I V R E!!
Eternamente Livre!!!
Eternamente Livre para poder respirar!
Assim, deixo a minha alma adormecer.
Assim, deixo o meu esqueleto sobreviver.
Assim, deixo-me parasitar neste espaço que, outrora, me sufocava.