terça-feira, 27 de abril de 2010

Eu e Tu

Eu nata a 7 de Setembro de 1989
Tu nato a 20 de Setembro de 1959

Eu virginiana
Tu virginiano
Nós, virginianos

Eu do sexo feminino
Tu do sexo masculino

Eu filha
Tu pai

Eu Ana Marques
Tu Armindo Marques

Eu a imagem
Tu o espelho

Eu não te conheci
Tu conheceste-me

Como era?
Fofinha?
Bolachuda?
Gorduchinha?
Pequenina?
Um monstrinho acabado de nascer?
Oh! Vês?
Afinal, não mudei assim tanto!
Sabes?

Vou contar-te um segredo! Só a ti! Guarda-o bem!
No infantário, chamavam-me de “fofinha”. E, sabes por quê?
Porque lhes dava vontade, a quem lá estava comigo, de me pegar nas bochechinhas e mimá-las.

Eu de olhos castanhos esverdeados
Tu de olhos castanhos esverdeados
Nós, os de olhos castanhos esverdeados

Eu com o meu eterno hábito de abotoar qualquer casaco e/ou camisa com a mão esquerda
Tu com o teu eterno hábito de abotoar qualquer casaco e/ou camisa com a mão esquerda
Nós, com o nosso eterno hábito de abotoarmos qualquer casaco e/ou camisa com a mão esquerda

Eu com o meu velho costume de dormir horas seguidas
Tu com o teu velho costume de dormir horas seguidas
Nós, com o nosso velho costume de dormirmos horas seguidas
(Afinal, dormir é meio sustento, já tu o dizias - grande verdade!)

Eu que não consigo comer sardinhas à mão: uso talheres
Tu que não conseguias comer sardinhas à mão: usavas talheres
Nós, os que não sabemos comer sardinhas à mão: usamos talheres

Tu que me deste colo.
Tu que me mimaste.
Tu que me alimentaste.
Tu que me mudaste as fraldas.
Tu que me deste banho.
Tu que me vestiste.
Tu que me embalaste.
Tu que me adormeceste.
Tu que dormias comigo.
Tu que esperaste que eu nascesse sentado nas escadas da Maternidade Júlio Dinis, no Porto, acompanhado pelo nosso melhor amigo.
Tu que dizias que ia ser uma futura Ministra da Educação semelhante à da altura, a Maria de Lourdes Pintassilgo. Quase. Quase que acertavas, papá. Quase. Foi por pouco. Foi. Foi ao lado. Acertaste na área científica: na Educação. Serei, se terminar o curso dentro de dois anos (fora o mestrado), mais uma professora do primeiro ciclo deste país.
No teu tempo, dizia-se professora primária.
No teu e no meu.
No nosso tempo.
Erraste na pessoa com a qual me assemelhaste, com a qual me comparaste. Não. Não saí parecida à antiga Ministra da Educação. Saí idêntica a ti. Há quem diga que somos iguais. Iguaizinhos. A tua cara chapada.
Até eu o afirmo.
Vejo-te.
Encontro-te.
Diariamente.
Tu que primavas pela simplicidade.
Tu que primavas pela frontalidade.
Tu que primavas pelo respeito mútuo.
Tu que primavas pela tua ímpar personalidade.
Tu que partiste quando eu tinha um ano.
Tu que partiste no dia em que a minha madrinha (tua cunhada) celebrava o dia do seu nascimento (Ironia do destino!).
Tu que partiste no dia 15 de Dezembro de 1990.
Tu que ainda me vês.
Por isso,
Eu e Tu
Tu e Eu
Ontem
Hoje
Amanhã
Sempre
Este é para ti.
Beijinhos da tua filhota.

Ana Marques

1 comentário:

  1. parabens priminha pelo teu dom da escrita ... gostei de todos os textos mas principalmente deste pois revivi muitas recordaçoes ao le-lo ... tenho a certeza q teu pai estará sempre a tomar conta de nós tu como filha e eu como sobrinha afilhada ele é uma pessoa linda ai q saudades... jamais abandones as tuas miudas agora mulheres , AMO-TE PADRINHO

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