terça-feira, 27 de abril de 2010

Diálogo entre Palavras

Depois do corre-corre, característico de um segundo ano académico, é natural que haja agora mais tempo, mesmo que estejamos ainda numa fase de pseudo férias, uma vez que não me poderei esquecer dos próximos exames, tanto de melhoria como de recurso, para se folhear memórias passadas. E foi exactamente isso que fiz, há dias, debruçando-me no conjunto de materiais que compõem o meu portefólio de Literatura Portuguesa, vindo a encontrar, dentro desse mesmo leque, dois textos que considerei interessantes serem publicados neste meu blogue, já que o seu maior ingrediente é a minha experiência (depois, é que se acrescenta a imaginação): um, associado ao Diálogo entre Palavras, e um outro, intimamente subjacente ao estudo de Os Lusíadas, nomeadamente, ao seu nono canto, pois é nele que viajamos para um outro mundo, para uma outra Ilha, a dos Amores.
Diariamente, temos conhecimento da chegada de novas palavras, vulgarmente designadas como neologismos, à nossa Língua, como substituto das mais antigas, isto é, dos arcaismos, o que provoca nestes revolta, sentimento esse que está bem patente no diálogo que seguidamente será transcrito.
Idosa – Olá! Será que poderei falar consigo?
Cota – Claro que sim. Na boa, pá. Mas, antes de mais, diz-me uma coisa: quem és tu?
Idosa – Quem sou eu? Não sabe quem eu sou?! Pois, então, vejo que estamos em pé de igualdade, porque também desconheço quem seja e que qualidades específicas é que possui para se apoderar do meu lugar.
Cota – Eu? Apoderar-me do teu lugar? Estás a insinuar que to roubei? Hmmm? Não estou mesmo a perceber onde é que pretendes chegar com esta conversa. És capaz de me trocar isso por miúdos?
Idosa – Nem mais. O que se passa é o seguinte: por sua causa, ou melhor, graças à sua feliz existência, eu caí em desuso, percebe? Por outras palavras, fiquei fora da validade: será que fui agora suficientemente clara?
Cota – Ahhh!!! Sim, sim!! Agora, sim!! Perfeitamente, aliás! Mas, será só esse o motivo responsável pelo despoletar de tanta arrogância da tua parte à minha pessoa?
Idosa – Só??? Vê-se mesmo que não tem estrutura suficiente para perceber o quão significativa é essa mudança na minha vida, que não consegue perceber, de uma vez por todas, que, por agora estar in, eu estou out para os falantes da Língua Portuguesa.
Cota – Oh!!! Tanto drama não sei para quê!! Não te preocupes que eles já sabem que tu já estás demasiado cota, e, que, portanto, o que necessitas, neste preciso momento, é de descanso, daí permaneceres numa comum página de dicionário.
Idosa – Que rica amiga me saiu!!! Ainda troça da minha situação?! Pois bem, parece-me, então, que o povo tem realmente razão, ao proferir o provérbio Vozes de burro não chegam ao céu. Contudo, deixo-lhe um breve conselho: como agora está in, esquece-se que a Língua é um organismo vivo, e, como tal, em permanente evolução, logo, daqui por uns anos, os jovens, sendo donos de uma imensa criatividade, já se terão lembrado de criar uma outra palavra para a reciclar, e, nessa altura, terei todo gosto em recebê-la no meu dicionário.
Cota – Ei??? Qual é a tua?! Agora, deu-te para fazeres futurologia, é?? O que tu tens sei-o eu: chama-se dor de coto. É lixado não se desfrutar da fama de tempos idos, não é?! Então, relaxa nessa tua página de brevete de dicionário, que já de tão cota, se encontra amarelada!
Idosa – Quem ri por último, ri melhor.

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