Esta tarde temos connosco um convidado muito especial, o poeta das sensações, assim conhecido pelo grande público. De seu nome Alberto Caeiro, loiro sem cor, de olhos (azuis) claros, de cara rapada e de estatura média, nasceu em Lisboa, a 1889, apesar de ter vivido, quase toda a sua vida, no campo, como camponês que o era. Perdeu os pais cedo, deixando-se ficar em casa, na companhia de uma tia velha, tia-avó, de parcos rendimentos, o que, talvez, explique a sua pouca instrução – quase nenhuma – apenas a primária, e a inexistência de qualquer profissão. Contudo, é considerado o mestre entre os heterónimos pessoanos, inclusive pelo próprio ortónimo, ao ser um poeta enigmático e complexo, ligado à Natureza, que despreza e repreende qualquer tipo de pensamento filosófico, afirmando que o pensar nos retira a visão, uma vez que não nos permite ver o mundo tal e qual como ele é: simples e belo. Convidámo-lo a vir conhecer melhor este vulto da Literatura Portuguesa Contemporânea.
1. Boa tarde, mestre Alberto Caeiro, o que pensa sobre o mundo que o rodeia?
Alberto Caeiro (que, futuramente, será apenas designado como A. C.): O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso eu do Mundo! Se eu adoecesse, pensaria nisso, porque pensar é estar doente dos olhos. Apenas creio no mundo como um malmequer, porque o vejo, mas não penso nele. O mundo não se fez para pensarmos nele, mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.
2. Estar de acordo com ele é ter uma relação íntima com a Natureza? Podia explicar-nos um pouco melhor esta sua expressão?
A. C. : Estar de acordo com ele é ter como casa artística a Terra toda, é pensar numa flor, é vê-la, é cheirá-la, é...
3. Então, nessa linha de pensamento, os seus sentidos, o que sente, são os seus pensamentos?
A. C. : Sem dúvida. Não se pode esquecer que eu sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todas as sensações, por isso, é que penso com os olhos, e com os ouvidos, e com as mãos, e com os pés, e com o nariz, e com a boca.
4. Se as suas sensações são pensamentos, então, propõe uma não filosofia, resultante de uma poesia natural e espontânea, oriunda dessa identificação do sujeito poético com a Natureza, onde nada há para corrigir, nem para pôr, nem para tirar?
A. C. : Sim, eu não tenho filosofia. Tenho sentidos. Para além de que pensar incomoda como andar à chuva, quando o vento cresce e parece que chove ainda mais.
5. Essa é a concepção de poesia que defende. Que opinião tem acerca da que é feita pelos outros poetas, através da leitura dos versos que tem analisado até agora?
A. C : Li hoje duas páginas de um poeta místico e ri como quem tem chorado muito, pois, na minha opinião, os poetas místicos são filósofos doentes, e os filósofos são homens doentes por dizerem que as flores sentem, que as pedras têm alma e os rios êxtases ao luar.
6. Como se sente, quando redige a prosa dos seus versos?
A. C. : Fico contente, porque sei que compreendo a Natureza por fora; e não a compreendo por dentro, porque a Natureza não tem dentro, se não, não era a Natureza. O mesmo acontece às flores, às pedras e aos rios, pois nenhum deles sente, pois nenhum deles tem alma ou êxtases ao luar, porque, se os tivessem, eram gente, ou melhor, seriam homens doentes.
Assim, ficámos a conhecê-lo melhor, ao mestre, que apareceu de pura e inesperada inspiração a Pessoa, daí que Caeiro afirme que o pensar implica a entrada num mundo complexo e problemático, onde tudo é incerto e obscuro. Defende, então, o real, isto é, a própria exterioridade que não necessita de subjectivismos, repreendendo qualquer pensamento filosófico, proclamando-se um antimetafísico, porque, no seu entender, a interpretação do real, pela inteligência, reduz as coisas a meros conceitos.
No fundo, Caeiro, esse nosso eterno mestre, acredita que os seres simplesmente são e nada mais, irritando-se com a metafísica ou outra qualquer simbologia escolhida como guia para a vida.
Aqui fica o nosso muito obrigado por ter acedido ao nosso convite, ou seja, ter dialogado connosco, privilegiando-nos com a sua sapiência.
2. Estar de acordo com ele é ter uma relação íntima com a Natureza? Podia explicar-nos um pouco melhor esta sua expressão?
A. C. : Estar de acordo com ele é ter como casa artística a Terra toda, é pensar numa flor, é vê-la, é cheirá-la, é...
3. Então, nessa linha de pensamento, os seus sentidos, o que sente, são os seus pensamentos?
A. C. : Sem dúvida. Não se pode esquecer que eu sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todas as sensações, por isso, é que penso com os olhos, e com os ouvidos, e com as mãos, e com os pés, e com o nariz, e com a boca.
4. Se as suas sensações são pensamentos, então, propõe uma não filosofia, resultante de uma poesia natural e espontânea, oriunda dessa identificação do sujeito poético com a Natureza, onde nada há para corrigir, nem para pôr, nem para tirar?
A. C. : Sim, eu não tenho filosofia. Tenho sentidos. Para além de que pensar incomoda como andar à chuva, quando o vento cresce e parece que chove ainda mais.
5. Essa é a concepção de poesia que defende. Que opinião tem acerca da que é feita pelos outros poetas, através da leitura dos versos que tem analisado até agora?
A. C : Li hoje duas páginas de um poeta místico e ri como quem tem chorado muito, pois, na minha opinião, os poetas místicos são filósofos doentes, e os filósofos são homens doentes por dizerem que as flores sentem, que as pedras têm alma e os rios êxtases ao luar.
6. Como se sente, quando redige a prosa dos seus versos?
A. C. : Fico contente, porque sei que compreendo a Natureza por fora; e não a compreendo por dentro, porque a Natureza não tem dentro, se não, não era a Natureza. O mesmo acontece às flores, às pedras e aos rios, pois nenhum deles sente, pois nenhum deles tem alma ou êxtases ao luar, porque, se os tivessem, eram gente, ou melhor, seriam homens doentes.
Assim, ficámos a conhecê-lo melhor, ao mestre, que apareceu de pura e inesperada inspiração a Pessoa, daí que Caeiro afirme que o pensar implica a entrada num mundo complexo e problemático, onde tudo é incerto e obscuro. Defende, então, o real, isto é, a própria exterioridade que não necessita de subjectivismos, repreendendo qualquer pensamento filosófico, proclamando-se um antimetafísico, porque, no seu entender, a interpretação do real, pela inteligência, reduz as coisas a meros conceitos.
No fundo, Caeiro, esse nosso eterno mestre, acredita que os seres simplesmente são e nada mais, irritando-se com a metafísica ou outra qualquer simbologia escolhida como guia para a vida.
Aqui fica o nosso muito obrigado por ter acedido ao nosso convite, ou seja, ter dialogado connosco, privilegiando-nos com a sua sapiência.
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