terça-feira, 27 de abril de 2010

Naquele Tempo...

Olá, amigo leitor!!

Hoje, venho contar-te uma história. Não uma história imaginária, daquelas que aparecem nos livros de contos de fada, que estás habituado a ler, mas verdadeira, pois aconteceu mesmo e estou cá eu para to provar.

Sabes? Eu também já fui criança, embora isso custe a admitir à maioria dos adultos, ou até se esqueçam disso, mas eu não. Eu dificilmente esquecerei. Não. Eu nunca esquecerei, por muitos anos que ainda viva, do meu tempo de criança, porque fui bastante marcado por ele, pelo tempo. Aliás, é desse meu tempo de criança de que te venho falar hoje.

Naquele tempo, há já muito tempo atrás, há trinta e cinco anos mais precisamente, ainda tu não eras nascido, o meu país (que, hoje, também é o teu, Portugal) estava repleto de pessoas tristes, cinzentas, fechadas e mudas. Pessoas com Medo. Medo não. Medo é pouco ainda. Pavor. Sim, Pavor. De uma forma geral, era isso. Era isso que as entristecia, que as acizentava, que as fechava e que as calava.

Mas, perguntar-me-ás tu: “Com Pavor de quê?” e eu respondo-te: “Com Pavor de tudo e de nada”. De pensarem. De traduzirem por palavras o seu pensamento. De conversarem entre elas. De viajarem para outros países, conhecendo outros mundos e gentes. De escreverem o que quer que fosse.

Por tudo isto, falavam, nas poucas vezes que falavam, num tom baixo. Falavam entredentes. Nos cafés, nas ruas, nos seus empregos e casas. E, sempre que alguém se aproximava delas, para lhes perguntar alguma coisa, baixavam a cabeça e mudavam rapidamente de assunto.

Mas, infelizmente, isto ainda não é tudo...
Naquele tempo, até parecia que as paredes tinham ouvidos. Tudo se descobria. Havia milhares de olhos e de ouvidos. Isto acontecia porque o Estado criou diversos meios para poder oprimir e anular liberdades individuais, pois é o que sucede quando os governantes não são amados nem sequer respeitados; quando impera a desconfiança constante face aos outros. Daí o Estado descrever-se como profunda e orgulhosamente só (já que nem mesmo os países estrangeiros o apoiavam agora), sem saber o porquê de algumas pessoas estarem do seu lado, isto é, se por medo, por convicção, ou até, se por puro interesse.

E um desses muitos meios foi a PIDE – a Policia Internacional da Defesa do Estado, que veio substituir a antiga DGS, a Direcção – Geral de Segurança. Criada em 1933, por António de Oliveira Salazar, o ditador fascista que ocupava o cargo de Presidente do Conselho de Ministros, instaurador do Estado Novo. Tornou-se na mais odiosa das instituições, porque seguia todos os passos das pessoas, interferindo até na sua vida pessoal. Espiando e perseguindo o seu dia-a-dia, através de escutas telefónicas, da invasão às suas casas a qualquer hora e da violação da correspondência, entendendo que isto fazia parte do bem comum.

Para além disto, vigiava Homens inocentes que, só por pensarem de maneira diferente do regime ditatorial, eram levados presos. Ora para Tires, ora para Caxias ou ora para Peniche, mas também para campos de concentração, como o do Tarrafal, onde se encontravam os membros mais perigosos, encerrados durante anos, apesar de terem tentado fugir - Bento Gonçalves, Eduardo Gonçalves, Jacinto Vilaça, Mário Castelhano, entre muitos outros. Aí, eram torturados de forma a dizerem tudo o que sabiam. Contudo, como não faziam o que lhes era pedido, muitos deles acabaram mortos, ainda que o Estado declarasse que a sua morte se deveu a um acidente ou a um suicídio.

Um outro meio de repressão foi a Censura que era representada pelo lápis azul que relia e riscava todas as mensagens contrárias ao regime existente transmitidas pela Comunicação Social (revistas, jornais e rádios). A primeira estação de rádio surgiu em 1935. Era a chamada Emissão Nacional que foi, imediatamente, aproveitada pela ditadura como forma directa de propaganda política, embora não tenha tido o efeito desejado: havia sempre quem desafiasse o regime e fizesse programas proibidos que, quando descobertos, já era tarde, pois a mensagem de esperança já tinha chegado a muitos portugueses.

Naquele tempo, todos os Homens eram obrigados a prestar serviço militar. Naquele tempo, estávamos na altura da Guerra Colonial.

Naquele tempo, a emigração era muita. Não se encontrava trabalho pelo país. Portugal era um país pobre e atrasado, que poucas opções de escolha dava às pessoas. Ou continuavam a levar a vida que os seus pais e avós levaram, ou partiam à aventura para outros países mais desenvolvidos – como a França, a Alemanha e a Suíça – em busca de melhores condições de vida. Mas, tanto o faziam legalmente, tendo, assim, emprego e estadia assegurados nesse país, como ilegalmente, o que acontecia com a maior parte dos estudantes.

Naquele tempo, a sociedade vivia limitada nos seus comportamentos. Tinha de valorizar a figura de Salazar; ver a educação como um meio de obediência e não de igualdade, ou de liberdade. Nesta sociedade, a mulher e o homem não tinham os mesmos papéis. O homem tinha de trabalhar para sustentar a sua família, enquanto a mulher ficava em casa a tomar conta dos seus filhos, mostrando ser uma boa esposa e uma boa mãe.

Também o namoro, naquele tempo, era diferente. Acontecia quase sempre às escondidas, era proibido beijar-se em público, e, caso as autoridades assistissem a uma situação destas, multavam quem a praticasse.

Naquele tempo, os jovens deviam de conviver pouco, por isso, é que, nas escolas, havia a preocupação de os separar pelo sexo, colocando as raparigas numa sala e os rapazes numa outra.

Naquele tempo, o povo tinha direito ao voto, mas este não era totalmente livre. De acordo com a Constituição de 1933, só um partido era legal, a União Nacional. Isto fez com que não houvesse verdade nos resultados obtidos durante a contagem dos votos. Assim, este partido conseguia vitórias esmagadoras. Por outro lado, quem votava na Oposição, era perseguido, marginalizado, e, até mesmo, expulso do seu local de trabalho.

Quando Salazar morreu, dizem que foi por ter caído de uma cadeira e ter batido com a cabeça no chão, foi substituído por Marcelo Caetano, mas este nada mudou na política. A solução acabou por chegar do lado de quem fazia a guerra: os militares, entre os quais Otelo Saraiva de Carvalho, Vítor Alves, Salgueiro Maia, Costa Gomes, António Spínola, Mello Antunes e Vasco Carneiro, pois não te esqueças que dos desastres e dos fracassos também se tiram lições.
Cansados de tudo isto, os militares criaram o MFA – o Movimento das Forças Armadas -, mais conhecido como o Movimento dos Capitães.

Estes acreditavam em valores como a camaradagem, a lealdade, a confiança no outro e o respeito pela palavra dada. Acreditavam que, juntos, seriam invencíveis, que poderiam alterar o futuro, por isso, é que Marcelo Caetano dizia: “Cuidado com esses Capitães que são muito novos para se deixarem comprar”. Sem dúvida que tudo seria diferente se estes homens fossem mais velhos. Seriam menos activos e menos sensíveis às situações de injustiça e de violência. A sua ousadia e generosidade em conjunto com a experiência e o conhecimento dos mais velhos, que lutaram na Guerra Colonial, foram muito importantes para que tu hoje vivas num país diferente.

Era, então, chegada a hora da mudança. Otelo Saraiva de Carvalho fez um plano militar, e, na madrugada de 25 de Abril de 1974, a operação “Fim-Regime” tomou conta dos pontos mais importantes da cidade de Lisboa, em especial, dos aeroportos, da rádio e da televisão.

Mas, para saberem quando deviam sair à rua, na rádio, ouviram-se duas músicas que serviram de senha para a revolução: “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, e “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso.

As forças do MFA, lideradas por Salgueiro Maia, cercaram e tomaram o quartel do Carmo, onde se refugiara Marcelo Caetano. Este, apanhado de surpresa, limitou-se a assistir aos acontecimentos. Para ele, este foi um dia de pesadelo que queria ver chegar ao fim o mais rápido possível.

Já, para a população, este dia foi muito importante, pois foi o dia em que lhes foi devolvida a Liberdade, por isso, é que ficará para sempre celebrado como o Dia da Liberdade, ou como a Revolução dos Cravos, uma vez que, durante as manifestações, uma senhora ofereceu um cravo a um militar que o colocou na sua arma.

O povo português viu as portas das cadeias abrirem-se, libertando-se, assim, os sobreviventes; as janelas encheram-se de cravos e de bandeiras; e os rostos já não eram os mesmos, porque se iluminavam agora de alegria.

Com tudo isto, quero dizer-te que deves aproveitar todos os valores que o 25 de Abril te trouxe: a democracia, a liberdade e a igualdade. Se hoje podes exprimir as tuas ideias, manifestar-te ou, até mesmo, namorar em público, deve-se aos teus antepassados que lutaram, ainda que, para isso, alguns deles, tenham perdido a vida, enquanto lutavam por aquilo que acreditavam: num país mais livre e mais justo, onde todos tivessem lugar, com igualdade de direitos e liberdade de expressão.

E lembra-te: luta sempre por aquilo em que verdadeiramente acreditas, por aquilo que achas que tens direito, se é mesmo isso que queres. Durante essa luta, não desistas. Todos temos capacidade para mudar o futuro.

Sem comentários:

Enviar um comentário